quinta-feira, 10 de maio de 2012

Depois de um dia inteiro de trabalho
voltas para casa, cansado.
Já é noite em teu bairro e as mocinhas
de calças compridas desceram para a porta
após o jantar.
Os namorados vão ao cinema.
As empregadas surgem das entradas de serviço.
Caminhas na calçada escura.

Consumiste o dia numa sala fechada,
lidando com papéis e números.
Telefonaste, escreveste,
irritações e simpatias surgiram e despareceram
no fluir dessas horas. E caminhas,
agora, vazio,
como se nada acontecera.

De fato, nada te acontece, exceto
talvez, o estranho que te pisa o pé no elevador
e se desculpa.

Desde quando
tua vida parou?

Ferreira Gullar
(F&N)
Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui o mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi!

Renato Russo

(F&N)

Não é triste mudar de idéias; triste é não ter idéias para mudar.
(Barão de Itararé)

(F&N)
Não desças os degraus do sonho para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde os deuses - por trás das suas máscaras, ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica!
O mistério está é na sua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo…

Mario Quintana.

(F&N)
No fundo, não interessa o que você faz, não sobra ninguém. Tudo acaba. Acabam para você. Põem coisas no meio. Coisas para fazer. A vida mesmo. Ou nada. Simplesmente não dá. Você mesmo trata de destruir. Porque o difícil não é amar. É continuar. Ir em frente.
(Patrícia Melo - Mundo perdido)

(F&N)

As Muralhas de Jericó, Atrás da "Cortina de Ferro", Londres



(…)
      Arrumo a mala com carinho. Peço para a telefonista me chamar às cinco horas. Apago a luz. Deito-me sem sono. Quantas horas teria dormido até agora? Faltam cinco para as cinco. Ligo para a telefonista, antecipando-me ao chamado. Vou para o chuveiro. A água é morna e grossa. Faço a barba, ainda sonolento. Visto-me e desço.
      Quando o carro começa a rodar vejo os últimos boêmios que se recolhem. Os bondes carregando gente adormecida. Da baía vem uma aragem agradável, impregnada de maresia. O chofer é um português moço e falador. Pergunta se vou para o Sul. Penso antes de responder. Adiantaria dizer alguma coisa àquele cidadão que eu iria para Rússia, para Moscou? Não.
     -Vou para o Recife. Conhece?
     -De passagem, doutor, de passagem.
     Assim é melhor, que ele poderia me tomar por louco ou mentiroso. Alguém dizer no Rio “vou para Moscou” só poderia esperar uma resposta irônica como “pois eu vou para a China”. Mas o táxi pára defronte os escritórios da BOAC. O português ajuda a descarregar a bagagem. Recebo os cumprimentos do vereador Saldanha, que se adianta com a novidade:
     -Você vai pela Inglaterra.
Pago o português, que me olha desconfiado. A mentira tem as pernas curtas.
(…)
(Josué Guimarães)

Ismália, de Alphonsus de Guimaraens
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…